Capa Julho 2026
Charuto 1

Até então, poucas foram as experiências com o terroir africano, por isso queremos compartilhar com vocês este “Toro”.

As prateleiras brasileiras estão recheadas de charutos com tabacos “americanos”. Alguns com sua pureza nacional, outros com blends simples ou variados, mas em sua quase totalidade tabacos produzidos no hemisfério ocidental.

Excelentes charutos – diga-se de passagem – muitos premiados mundialmente, outros com avaliações acima dos 90 pontos e ainda aqueles que encontram no añejamento sua melhor performance mantendo sempre em comum folhas produzidas deste lado do hemisfério.

Em viagem recente à África, tive o prazer de conhecer este charuto. Além de sua bela anilha, soube que ele tem uma forte ligação regional e possui, em seu blend, folhas cultivadas em Zimbabue – que para minha surpresa temperam muito bem o blend proposto.

O charuto Nyamynyami, descrito como uma herança africana, faz parte do portfólio da François, uma empresa com mais de 300 anos de experiência em vinhedos e plantações de tabaco. Sua história começa no Cabo da Boa Esperança em 1688 rapidamente difundindo-se para Welvanpas e posteriormente o Zimbábue onde mantém vivas as raízes tabaqueiras.

Atualmente o país é o maior exportador de tabaco do continente e 5º maior produtor global. Seu impacto é tão significativo que chega a 25% das exportações do país sustentando mais de 100 mil pequenos produtores.

Nyamynyami

Seu terroir possui uma característica singular, produz folhas com menor intensidade de nicotina ao mesmo tempo em que entrega doçura e um toque de especiarias – característico do continente – o que transfere ao charuto notas leves e agradáveis que evoluem junto à queima.

Seu nome, NyamiNyami, faz referência ao deus do rio na mitologia Tonga. Descrito como uma serpente com corpo de peixe e cabeça de dragão é considerado o deus da vida na cultura do Vale do Zambeze que até hoje cultua a “lenda”.

Com relação ao charuto, ele já começa a se destacar pela sua anilha. Um colorido único com adornos muito bem executados e sua referência natural ao deus inspirador. Uma capa grossa, levemente oleosa, que permite um corte fácil e um acendimento tranquilo, sem resíduos de queima.

Seu aroma a frio revela notas de doçura e especiarias – como era de se esperar pela composição total do seu blend. Charuto pesado com uma quantidade generosa de folhas e um fluxo muito agradável, como é de costume nos dominicanos.

Um charuto que parece não evoluir muito (o que é um engano) porque já entrega bastante sabor ainda no primeiro terço e se mantém constante ao longo de toda sua estrutura. Cinza firme e alongada e aromas que se misturam em cada “puxada”.

Achei ele sensacional! Talvez pelo afeto da viagem, pelas histórias contadas ou então pelo simples fato de encontrar algo que para mim era diferente, novo. Não sei ao certo se tudo isso influenciou, mas de fato é um belo exemplar.

A segunda experiência com ele foi tão perfeita quanto a primeira e posso afirmar, sem erro, que a sua será igualmente satisfatória.

Nyamynyami

Para finalizar, vale uma referência à marca François Retief – detentora da marca NyamiNyami – empresa que valoriza suas raízes e mantém um portfólio generoso de charutos que fortalecem e enobrecem a história. Em contato com sua central, comentei que estamos entregando o charuto para nosso clube de assinatura e gostaria de saber qual a fábrica que produz o charuto, obtendo a seguinte resposta: É produzido na República Dominicana e faz parte do nosso portfólio, ou seja, é um charuto FRANÇOIS.

Apesar da frustração, reconheço que eles realmente valorizam sua origem.

Flor de La Vega - Julho 26

Eu tenho certeza de que quando você viu o card com um charuto Flor de la Vega pensou: sério isso? Eu posso garantir que apesar de ser uma escolha pouco provável, ela tem um motivo que faz todo o sentido a partir do momento que você acender este charuto.

No começo deste ano, recebemos um evento do César Adames falando sobre as mudanças físicas e químicas do charuto com o passar do tempo. O conteúdo foi muito rico, assim como as perguntas feitas ao longo da apresentação – na oportunidade degustamos 1 charuto com 30 dias de fabricação e outro com 365 dias.

Mantivemos contato (César e eu) pois surgiram outros grupos interessados em repetir este evento dada a curiosidade do tema.

No início deste mês, recebi uma ligação do mestre perguntando se eu já havia degustado este charuto “añejado” – de fato nem sabia que tinha a venda. Ele seguiu a conversa dizendo: estou fumando o 3º e tenho certeza de que será um belo presente para o LaCasa Club – se ele disse, não sou eu a contrariar!

Todos sabem a admiração que tenho por ele e a atenção que anualmente ele dispensa a nós. Só isso já seria mais que suficiente para aceitar a sugestão, porém, quando recebi os charutos entendi um pouco mais sobre nossa conversa ao telefone.

Flor de la Vega - Club+

Este charuto está añejando desde 2018, ou seja, possui mais de 8 anos de produção e estabilização em condições adequadas. Ao abrir o maço, ficou ainda mais evidente o que o tempo é capaz de fazer pois o aroma exalava naturalmente.

Abri o primeiro charuto para degustar e percebi que o celofane estava “marrom” que a oleosidade de sua capa estava entranhada na embalagem. Seu aroma, bastante presente, entregava uma doçura única e uma picância forte e agradável.

Capa oleosa, macia e aveludada, assim como seu sabor logo no primeiro terço.

Sua capa habano equador e seu capote habano Criolo trazem bastante intensidade ao charuto, porém, este envelhecimento tirou a agressividade e apresentou muito mais equilíbrio em cada sorvo. Um melaço fragilmente se apresentou deixando uma pergunta: será mesmo um Flor de la Vega?

Charuto delicioso, fumada constante, fluxo impecável e um retrogosto macio sem persistência exagerada. Sua fumaça se mantinha presente no ar mesmo que a cinza não formasse uma estrutura alongada. Uma experiência para poucos sortudos!

Me rendi, desde o primeiro terço ao conhecimento do César e sua improvável sugestão e entendi que o tempo faz bem ao charuto assim como à experiência dos grandes oráculos.

Se fosse uma degustação às cegas, jamais acertaria a procedência deste charuto o que me leva ao comentário necessário de que não podemos nos prender a rótulos ou anilhas, devemos experimentar ao máximo o que o mercado oferece.

Terminei minha degustação e já guardei mais alguns para outros momentos. Confesso que foi uma belíssima experiência degustar este charuto.

Não quero me apropriar do conteúdo alheio, mas cabe comentar que física e quimicamente, o tempo ajuda as folhas a se aproximarem ainda mais, deixando de lado o blend e transformando as folhas em um verdadeiro charuto. Os sabores químicos desaparecem por completo e dão espaço aos sabores secundários e terciários das folhas.

Nem todo charuto tem potencial de guarda – é verdade – mas este merece a ação do tempo para entregar equilíbrio e doçura.

Parabéns por fazer parte do LaCasa Club+ e ter a possibilidade de receber este charuto “añejado”

Boas baforadas

Luis Henrique Roman

Cigar Sommelier LaCasa 1973 e LaCasa Vale

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja outras curadorias