Como é prazeroso abrir uma caixa de charutos cubanos!
O aroma é inconfundível independente do tabaco que esteja armazenado na caixa. Nada contra todas as outras nacionalidades e seus mais variados aromas porém, as caixas cubanas possuem uma característica realmente singular.
Suas notas aromáticas, seu aspecto levemente rudimentar e sua anilha simples, deixam claro sua nacionalidade, porém sua capa de folha “grossa” – diferentes de seus coirmãos – foge um pouco aos produtos mais comuns ao mercado mundial.
A frio, depois do corte, um sabor predominante de cacau, quase um Titan de chocolate (risos). Nas primeiras baforadas, uma mistura de madeira e cacau com um retrogosto levemente ácido que não sei distinguir – agradável demais. A queima é regular e com anéis de fumaça bem-marcados – lindo de ver. Não é muito abundante em fumaça, porém ela é densa e se mantém firme no ar. Charuto pesado e cinza consistente, o que também diz muito sobre a qualidade deste habano.
Juan Lopez é uma marca fundada na década de 1970 e classificado pela Habanos S.A. como um charuto global. Apesar de sua participação moderada no mercado, possui muitos apaixonados – motivo pelo qual ainda se mantém em linha em diversos países.
Produzido com tabacos de excelência, provenientes de Vuelta Abajo, possui corpo médio a forte com um sabor encorpado impressionante.
Voltando a degustação, entrei no segundo terço. A cinza caiu formando o famoso lápis e o sabor continua evoluindo muito bem. Nada de amargor ou qualquer resíduo desagradável, um toque salgado começa a aparecer mantendo sua doçura inicial. A fumaça tornou-se mais densa e sua cinza firme mantém os anéis muito bem-marcados.
Talvez fosse o momento de agregar algum destilado, porém me mantenho firme na água para não interferir minhas percepções sobre o tabaco enquanto pesquiso mais sobre este “presente” cubano.
Um sabor tostado surge com bastante vigor e equilibra ainda mais a degustação. A queima se mantém regular sem necessidade de qualquer correção o que pode ser fruto da construção ou da maestria do meu acendimento (risos).
Voltando à história, este charuto foi lançado em 1990. Seu nome de galera é Juan Lopez Seleción Nº2 (popularmente conhecido como robusto) de dimensão 124mm x 50 – bitola tradicional e amplamente consumida ao redor do mundo.
Disponível em caixas de 25 ou 50 unidades é certamente um “puro cubano” de alto padrão, não à toa possui um grande apreço pelos especialistas da Cigaraficionado que lhe conferiram 93 pontos ao final da degustação, permitindo-lhe a 14ª posição no ranking de 2019.
Sua linha possui o total de 13 formatos, sendo três deles exclusivos ou regionais (Caribe, França e LCDH) variando entre pequenas e grandes bitolas para agradar a todos os públicos.
Voltando à degustação, acabo de retirar a anilha com muita facilidade para apreciar os últimos minutos deste “companheiro”.
É incrível como um charuto encorpado pode ser tão agradável. Seu perfil de sabor já apresentou muitas nuances conhecidas e variadas. O cacau e a madeira se mantiveram deste o início, porém algumas notas aromáticas de nozes e mel se fizeram presentes em diversos momentos.
O salgado e o tostado seguem evoluindo neste momento por isso me rendi ao café expresso como parceiro desta experiência.
Nas considerações finais, não posso me furtar da sinceridade e dizer que a simplicidade da caixa e da anilha não teriam chamado a minha atenção para o charuto, a final de contas, também sou muito visual em minhas escolhas, porém reforço aqui que o nosso objetivo enquanto clube de assinatura é entregar experiências e, principalmente, estimular ou obrigar as pessoas a desfrutar de charutos que não seriam a primeira opção exposta nos umidores além de outros que não estão de forma regular no Brasil (a exemplo deste). Dito isso, espero que sua lembrança seja tão satisfatória como a minha e que a anilha lhe permita excelentes recordações.
A escolha dos charutos deste mês teve um processo diferente de tantos outros pois não partiram de uma escolha baseada em disponibilidade, mas sim de uma pesquisa prévia sobre história e aceitação de mercado, permitindo-nos chegar a uma dupla quase siamesa.
CAO Bones, o charuto a quem me refiro a partir de agora, é uma daquelas escolhas pouco óbvias disponíveis nas prateleiras. Um charuto que assusta aos menos experientes devido a sua capa escura e não se apresenta como primeira opção àqueles que se encantam com caixas e anilhas elaboradas, ou seja, o charuto perfeito para compor nosso acervo.
Confesso que, ao me apropriar deste charuto, fiquei hesitante em começar a degustação, porém, já nas primeiras baforadas percebi que teria uma excelente experiência. Capa grossa e corte fácil – não quis furar, preferi a guilhotina – acendimento rápido e sabor intenso desde o início.
Fluxo agradável e constante, perfil adocicado e cinza firme com uma fumaça que preenche rapidamente o ambiente (agradável surpresa).
A linha de charutos CAO possui uma incrível e completa variedade que agrada a todos os perfis de apreciadores, entregando desde fumadas leves à charutos complexos. Sempre fui fã da linha Pilón, mas acabei de adicionar este às minhas experiências positivas.
A linha BONES, composta por 4 bitolas, foi criada a partir de um jogo de dominó entre amigos – o que pode justificar sua complexidade e a simplicidade da anilha fazendo alusão a um jogo onde a camaradagem é mais importante que a roupa. Cada bitola recebe o nome de uma modalidade do jogo, sendo este o “chicken foot” ou pé de galinha.
O termo “bones” recorda uma gíria americana para as peças do jogo que já fora esculpida em marfim ou ossos de animais.
Retornando ao charuto, a nicotina já começa a mostrar suas garras e “cisca” – com elegância – a garganta deste charuteiro. O sabor continua muito agradável e o aroma amadeirado deixa suas marcas pelo lounge.
Talvez você já tenha ouvido falar em Rick Rodriguez, um blender que já trabalhou na General Cigars e até mesmo com Ernesto Perez-Carrillo (dentre outros). Uma figura muito respeitada no mercado que, em 2009, assumiu o papel de Master Blender da linha CAO e a levou ao topo do mercado em 2015 com o charuto Flathead.
Rodriguez – o criador deste blend – explica que: “O Bones é sobre relaxar com os amigos, tomar uma cerveja gelada, jogar, fumar, fazer churrasco, bater um papo e se divertir ao máximo”, ou seja, um charuto sem julgamento e bastante democrático. Uma mistura para quem gosta de tabaco!
Não quero desmentir o mestre, mas acredito que este charuto acompanhe muito bem uma boa leitura ou um momento “relax” após o jantar, acompanhado de uma boa dose de Bourbon ou um vinho madeira que parece combinar muito bem.
Incrível como este charuto evolui em força, sabor, aroma e fumaça, parece que a cada baforada ele se expressa ainda mais sem demonstrar cansaço – parece um galo de rinha.
Já estou chegando ao final da minha experiência e consigo reconhecer claramente um toque de especiarias que se prolonga no retrogosto, sem exagero, mas certamente presente. Tenho certeza de que vou degustá-lo novamente e indicar sempre que possível esta experiência aos amigos pois sua maior beleza está escondida por baixo da capa.
Antes de findar este review, quero chamar a atenção aos tabacos aqui presentes, principalmente o connecticut muito julgado como um tabaco amarguento (não procure esta palavra no dicionário). Sua capa Broadleaf e capote shade, se completam com maestria e entregam uma sensação diferente ao paladar porém, o jamastran, presente no miolo é de uma qualidade singular e entrega muito nesta mistura. Conhecido por compor o blend do Camacho Corojo, sua singularidade transformou o blend e trouxe ainda mais corpo à fumada.
Deguste-o com a harmonização de sua preferência, não o julgue pela aparência, deixe-o brilhar com tranquilidade, e aproveite esta oportunidade para provar o “pé de galinha” fora do “tradicional brodo da nona”, eu tenho certeza de que ele lhe deixará satisfeito.
Boas baforadas
Luis Henrique Roman
Cigar Sommelier LaCasa 1973 e LaCasa Vale


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