Existem charutos que trazem consigo muito mais que aromas e sabores, eles contam sua história através de formatos, folhas, safras ou mesmo anilhas meticulosamente desenhadas, o que não é o caso deste pequeno notável que mistura tudo e mostra que o impossível não existe para os maestros da Drew Estate.
Fundada em 1995 por Jonathan Drew e Marvin Samel em NY, a empresa rapidamente tornou-se um gigante na produção de “puros” ultrapassando a marca de 80 milhões de charutos/ano, misturando excentricidade, blends exóticos, charutos maravilhosos e até mesmo ícones do mercado mundial com o Liga Privada.
A linha Liga Privada, oferecida com uma bela variedade de capas, tem seu blend (liga) elaborado (de forma privada) para atender ao gosto dos CEOs e, somente depois de alguns anos, passou a ser produzida de forma regular para o mercado. Com o objetivo ser degustado por seus fundadores ou aqueles que fossem presenteados, teve como “ordem” uma combinação de tabacos sem restrição de valores.
Folhas longas, produção limitada, torcedores selecionados e até mesmo uma sala separada dentro da empresa “La Gran Fabrica Drew Estate” em Esteli fazem deste seu maior símbolo, superando – na minha humilde opinião – os famosos charutos Blackened, criados com a participação de James Hetfield.
Em recente visita à Nicarágua, tive o prazer de conhecer pessoalmente esta gigante e ouvir um pouco mais sobre as histórias que fazem parte desta fábrica, inclusive algumas sobre esta bitola.
Um charuto relativamente pequeno – mas de fumada longa – com as pontas afinadas e de difícil produção em escala, finalizada com o emblemático “pig tail” que além de embelezar a forma, evita a necessidade de um cortador para liberar seu fluxo.
Produzido com folhas de tabaco altamente selecionadas que, além desta linha, entregam vigor e força ao querido Papas Fritas – outro excelente charuto produzido com as cortes do Liga Privada – seu nome é uma afronta ao impossível pois faz referência ao jargão popular “nem que os porcos voem”, expressão mundialmente conhecida e utilizada por outros fabricantes quando souberam que a Drew Estate estava desenvolvendo uma bitola duplo figurado, até então, impossível de ser feita em escala.
Sua caixa em madeira contendo 12 unidades fica devendo em estética, porém quando aberta revela uma belíssima “pérola” com aroma único. Sua capa grossa e escura, porém, sem grandes veios aparentes é cercada de oleosidade, permitindo satisfação no simples toque.
Um charuto produzido para fumadores experientes – de perfil encorpado – com uma fumaça densa que completa a boca, mantendo-se presente quando liberada em cada “puxada”, mantem-se elegante até o final sem amargar ou produzir qualquer sensação desagradável.
Sobre a degustação, me aventurei a saber se “os porcos realmente voam” e iniciei torcendo seu rabo para liberar o fluxo. Por seu formato, resolvi usar um (na verdade três) palito de fósforo para acender apenas a ponta, evitando o exagero o que se mostrou assertivo.
Dada sua peculiaridade, ele custou um pouco a manter a chama e começar a queimar, porém, desde o início já se mostrou intenso e saboroso. Logo em seguida, quando chegou à parte mais robusta, estabilizou e me permitiu um fluxo de fumaça ainda maior.
Os sabores são clássicos de um charuto especial, doçura leve, ardência mínima – um equilíbrio incrível – cinza persistente, inclusive mantendo o formato do charuto, porém, no segundo terço, precisei me render à guilhotina pois o residual da fumaça foi fechando as portas deste “filhote”.
Tamanho de leitão, mas força de javali! Um charuto encorpado que merece cuidado e uma bela feijoada antes da degustação para preparar o organismo à intensidade que se aproxima. Sua capa T52 (connecticut broadleaf habano) entrega muito mais que promete, provavelmente devido à sua longa fermentação.
Não tem como atribuir nota para este charuto sem degustar, pelo menos, mais 11 unidades, por isso deixo este número em aberto para que faça sua própria classificação.
Dicas de harmonização são muito pessoais, mas uma Rauchbier de corpo elevado vale muito o acompanhamento.
Para encerrar, quero compartilhar uma pequena curiosidade. Enquanto degusto este charuto e preparo o conteúdo, aguardo a chegada do time da Reality que está no RS para uma apresentação sobre a marca Drew Estate em nosso lounge – um dos motivos da escolha do flying pig para ser o charuto do mês de março/25.
Obrigado a todos que comemoram conosco 4 anos de LaCasa Club, que este seja apenas o início de um grupo de apaixonados sempre dispostos às novidades do mercado.
Boas baforadas
Luis Henrique Roman
Cigar Sommelier LaCasa 1973 e LaCasa Vale
Eis que março chegou e a profecia tornou-se realidade. O LaCasa Club + entrega uma experiência diferente, levando aos assinantes o mesmo charuto de fevereiro, porém com uma mudança estrutural na capa – desta vez dominicana.
Este review não pretende falar sobre fábrica, marca, bitola e tantas outras características já escritas no mês anterior. Nosso objetivo simples e direto é permitir que você tenha a possibilidade de entender a interferência da folha de capa ao comparar os charutos.
A exatos 12 meses, nosso “club” fez algo semelhante com os charutos Casdagli quando propusemos uma troca de miolo para acentuar o comparativo entre produtos muito semelhantes. Hoje, porém, a mudança tem contato maior com os lábios e pode apresentar uma variação mais marcante.
Qual a melhor capa, brasileira ou dominicana? Esta pergunta não deve ser o tema central da sua fumada, creio que o mais interessante seja perceber como apenas 1 folha de tabaco pode entregar sensações – aromas e sabores – variados.
O trabalho meticuloso dos maestros da La Aurora costuma “democratizar” suas linhas através destas mudanças que buscam atender diversos paladares. Capas mais escuras e intensas X capas mais claras, delicadas e suaves.
A capa possui uma grande influencia estética no charuto além de ser a folha que encontra os lábios e entrega a persistência gustativa do charuto. Se por um lado os tabacos brasileiros possuem, notas de especiarias e cacau, as folhas dominicanas costumam ser mais suaves ao passo em que entregam intensidade ao charuto.
As capas brasileiras costumam ser mais finas, leves e elegantes enquanto as dominicanas são mais grossas, lisas e vistosas, porém, ambas são admiradas e desejadas por blenders do mundo todo pois apresentam particularidades que influenciam muito o resultado.
A linha Peaman’s Choice – por curiosidade – comercializa este charuto em caixas mistas (metade dos charutos com cada capa) para instigar o charuteiro a provar e reconhecer variações visuais e sensoriais.
Perceba, fotografe e anote suas impressões, mas lembre-se sempre que o mais importante não é descobrir qual o melhor, mas se vale a pena ou não repetir a degustação. Ignore a indicação do país contida na anilha, tomando como base seu paladar no processo de avaliação.
Boas baforadas
Luis Henrique Roman
Cigar Sommelier LaCasa 1973 e LaCasa Vale


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