Por coincidência ou não, a poucos dias um cliente fez o seguinte comentário: nunca entendi as marcas cubanas produzidas em outros países! A conversa seguiu na tentativa de elucidarmos esta história que, para mim, tinha muito a ver com um certo “preciosismo americano” dentre outros motivos.
Agora, chegou o dia de escrever sobre o charuto Bolivar, uma destas marcas “duble” que foi alvo da nossa conversa, o momento certo para aprofundar a pesquisa sobre o tema e, me surpreender com os registros encontrados.
A marca Bolivar teve início em Cuba no ano 1902 em homenagem a Simon Bolivar, o libertador. Um charuto com força e personalidade produzido pela J.F. Rocha & Cia (de propriedade de imigrantes portugueses e brasileiros) cuja produção foi imediatamente transferida para a fábrica Partagás que mantém até hoje a “torcida” cubana deste charuto.
Em meados dos anos 1960, como é de conhecimento público, o governo de Fidel Castro nacionalizou a indústria de tabacos cubana, passando suas propriedades para a Habanos S.A. incluindo neste portfólio a marca Bolivar.
Este movimento levou fabricantes e produtores a buscar, em outros países americanos, uma saída para recomeçar sua atividade econômica destinando à América Central um nível de mão de obra qualificado sendo responsável pelo desenvolvimento de diversas fábricas e marcas que hoje sustentam um grande mercado.
Com o passar dos anos e a crescente dificuldade de adquirir tabacos cubanos para produção de charutos, o mercado “off cuba” passou a investir no plantio de plantas puras e híbridos como uma forma de sobrevivência que, posteriormente, tornou-se um potencial negócio pelos excelentes resultados alcançados.
Em 1962, John F. Kennedy – presidente dos Estados Unidos – assinou o embargo comercial dos produtos cubanos deixando o mercado americano desabastecido de charutos e folhas daquele país, gerando uma grande oportunidade para países embrionários.
Em 1972, o processo histórico de Menendez vs Faber, Coe & Gregg estabeleceu um precedente legal para estes exilados cubanos com relação a propriedade intelectual de suas marcas, permitindo que eles voltassem a produzir suas versões “não cubanas” de charutos sem perder a força de suas marcas – uma grande vitória àqueles que precisaram recomeçar.
Este movimento permitiu que a produção de Monte Cristo, Partagás, Cohiba, H.Upmann, Bolivar e diversas outras marcas devolvessem a seus criadores não apenas o intelecto de suas criações, mas uma forma de reescrever suas histórias.
Estas marcas “dublê” foram criadas mantendo algumas características do “irmão cubano” como força, bitola e perfil de sabor ao mesmo tempo em que ganharam uma personalidade que às permitisse criar suas próprias raízes no mercado mundial.
A primeira imagem é a referência cubana, enquanto a segunda refere-se a versão off cuba.
E sobre o charuto?
Bolívar Gran República Toro possui uma bitola intimidadora 6”x60 com tabacos oriundos de cinco países diferentes. Sua capa Habano Equador entrega um visual agradável e um sabor incrível que misturado aos demais componentes deste exemplar, apresenta um perfil de sabor intenso e complexo – indicado para fumadores experientes – ao mesmo tempo em que entrega muito sabor.
Sua mistura de tabacos é absolutamente intencional pois utiliza folhas de países que foram libertados por Simón – Colômbia e Equador – além de tabacos que reconhecem a força das Américas Central e do Sul. Seu capote Arapiraca brasileiro entrega uma textura forte e um toque de cacau no aroma e sabor deste charuto.
Um charuto de fumada longa devido a sua bitola pouco comum, apresenta evolução em cada terço da degustação e exige bebidas mais encorpadas para lhe acompanhar – ou uma água com gás que lhe permita imperar absoluto. Por hábito, iniciei a degustação furando o charuto, mas rapidamente acionei a guilhotina para “não pesar” demais. Fluxo solto, fumaça densa, cinza firme com anéis bem desenhados e quase 2 horas de degustação me acompanharam nesta pesquisa reveladora deixando uma impressão excelente com um retrogosto leve – característico de charutos bem desenvolvidos e armazenados. O chocolate somado às especiarias presentes na degustação me levaram a adicionar uma dose de “Disaronno” um licor que encaixou perfeitamente no segundo terço, sendo finalizado com uma dose de café expresso que sugiro fortemente a você pois tenho certeza de que também terá uma excelente experiência com ele!
Escolha seu melhor momento para este degustação e leve o tempo como aliado. Degustar sozinho ou acompanhado de amigos, acompanhar a experiência com um belo Rum, um Brandy envelhecido, um Bourbon ou uma cerveja deve ser sua marca pessoal pois o charuto precisa ser democrático. Perceber aromas e sabores também é muito particular sendo o mais importante nesta caminhada sua experiência final, ou seja, harmonize com seu bom gosto.
Mas, antes de terminar a “resenha”, cabe um fato histórico importante sobre este tabaco produzido pela STG em Honduras. Este charuto é um verdadeiro legado da marca pois sua força e bitola representam para evocar o espírito libertador e revolucionário de Simón Bolivar.
Boas baforadas
Luis Henrique Roman
Cigar Sommelier LaCasa 1973 e LaCasa Vale
La Aurora é uma marca de charutos produzida na República Dominicana que já figurou entre os umidores nacionais, porém, mesmo quando sua importação era regular por aqui, a linha “People’s Choice” não fazia parte do seu mix de produtos.
Fundada em 1903, La Aurora é a fábrica mais antiga do país. Localizada na região de Don Pedro, possui um portfólio variado com quatro linhas de produtos, chegando a uma produção 8 a 10 milhões de charutos/ano.
La Aurora People’s Choice 1495, de produção regular e limitada, possui em seu nome duas menções importantes:
- 1495 foi o ano de fundação da cidade de Santiago dos Caballeros. Localizada na região do Vale do Cibao, a cidade foi fundada pela colonização espanhola tornando-se berço da história desta marca.
- People’s Choice (escolha do público) marca uma linha democrática cujo objetivo é entregar uma seleção de tabacos de qualidade e sabor que sirvam aos mais variados públicos.
Ao longo dos anos a empresa ganhou expressão mundial sendo comercializada, atualmente, para mais de 60 países tendo ainda em seu menu diversos produtos altamente graduados por degustadores experientes.
Acho importante citar que a escolha deste tabaco não foi aleatória, mas sim um trabalho atento de busca que pudesse combinar com a história do Bolivar Gran República entregando, em fevereiro de 26, produtos cujo blend representa as mais variadas regiões produtoras da América Central e do Sul.
Este charuto possui tabacos produzidos em cinco países diferentes – Brasil, Equador, Nicarágua, Peru e República Dominicana – assim como o Bolivar – Equador, Brasil, Colômbia, Honduras e Nicarágua – levando a você, assinante do LaCasa Club produtos exclusivos de misturas amplas que permitam uma volta ao hemisfério ocidental.
E sobre o charuto?
Uma bitola grande finalizada com uma capa brasileira escura e uma anilha “retrô” que ainda segue os modelos tradicionais da marca. Acendimento rápido e uma queima regular ao longo de toda a degustação com uma bela cinza, fluxo leve e bastante fumaça.
O sabor terroso do primeiro terço é leve e mistura-se com nuances doces típicas do tabaco negro. Em toda a degustação a leveza das especiarias é contínua – provenientes de sua capa brasileira – e fica muito longe de sobrepor aos demais sabores deste charuto.
A fumada é longa e extremamente agradável – um charuto que deixa saudades – e harmonizou perfeitamente com a introspecção daquele momento. Sua fortaleza média não assusta aos menos experientes e passa despercebida devido ao conjunto de sabores revelados.
No retrogosto, uma sensação de café predomina na boca além de uma pitada de sal que insiste em acompanhar o charuto, principalmente no último terço…. “que baita charuto”.
Em algum momento do segundo terço uma leve caramelização se apresentou – mas pode ser apenas uma lembrança afetiva – o que foi muito satisfatório pois gosto de charutos que entreguem doçura durante a fumada.
Harmonização? Bom, procuro ser muito democrático neste sentido e nunca estereotipado, mas confesso que os whiskyes defumados são ótimos acompanhamentos dos mais variados charutos, incluindo este La Aurora, porém, na próxima degustação espero preparar um “carajillo” que tem fortes tendências a ser um maridage perfeito.
Um problema percebido neste charuto e importante de relatar: ele acaba. Pode parecer clichê, mas realmente deixou uma impressão tão positiva que ficará na memória e entrará em uma lista de desejos futuros.
Estou curioso para prová-lo na capa dominicana e entender sua interferência – quem sabe o clube não o entrega em março para que esta experiência seja possível?
Boas baforadas
Luis Henrique Roman
Cigar Sommelier LaCasa 1973 e LaCasa Vale



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